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CRIANÇA VELHA
Neiva Pavesi
(Mapa Cultural Paulista/1998 Fase municipal)
Eu me escondi numa concha e tive medo de viver. E perdi a minha infância num cipoal emaranhado de culpas e remorsos.
E não brinquei de boneca e não andei de bicicleta e não corri nas ruas. E não me lambuzei com o sorvete gordo e doce que estava na vitrine da vida para eu saborear.
Agora quero saber: quem foi?
Quem foi que me traiu? Quem foi que não me deixou sentir todas as delícias da minha infância? Quem foi que me tirou da boca o desejo de sorver todos os segundos da minha adolescência ?
Quem foi que me aprisionou num cálice barato e me fez acreditar que aquilo fosse taça de cristal?
Quem foi que me fez pensar que era pecado ser criança? Que havia proibições nos ?por quês?, nos ?senões??
Aprendi a questionar agora...
Mas agora a minha infância ficou distante e eu não a posso alcançar... Nem a minha adolescência voltará... Dá para acreditar? Fui uma criança velha e me perdi nos caminhos dos anos que passaram rápido demais... depressa demais...
Fiquei sem chances. Deslocada. Fora do tempo.
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